segunda-feira, 5 de outubro de 2026

 LEMBRANÇAS AFETIVAS DO MEU COTIDIANO


Pensando em falar sobre lembranças afetivas me pairou certa dúvida: o que é Afeto? Fui no dicionário do google (novo pai dos burros) e encontrei três definições:

Substantivo afeto: sentimento de imenso carinho, amor, amizade, ou apego dedicado a alguém, a algum animal ou até mesmo a um objeto ou ideia;

Verbo afetar: significa causar impacto ou transformação;

Lembranças afetivas: são recordações profundamente associadas a emoções, sentimentos e vínculos que vivenciamos ao longo da vida.

Enfim lembranças afetivas podem ser coisas boas ou ruins que nos impactaram tão profundamente que mudaram nosso modo de enxergar e sentir a vida.

Assim que, a minha mais antiga lembrança afetiva foi um tombo que levei aos três anos e bati a cabeça. Não houve corte, mas eu chorava lágrimas de sangue e minha avó botando uma faca na minha testa me mostrava a língua. Então eu ria e botava a língua para ela. Mais tarde soube que queria saber se eu estava vendo. Desse tombo me ficou de lembrança uma pinta na testa.

Muitas outras como a comida árabe que minha mãe fazia; o bolinho de feijão com farinha que meu pai fritava e dizia que era comida japonesa e eu acreditava; o quintal e as árvores frutíferas da casa da minha mãe (onde ela mora até hoje, mas parece bem menor)

A polícia da ditadura invadindo nossa casa e vasculhando tudo em busca do comunista do meu pai.

A Rússia, povo que me acolheu durante sete longos anos; a minha volta ao Brasil após anistia; São algumas das muitas e muitas das minhas memórias afetivas, todas me construíram.

Mas, claro, a mais impactante e transformadora foi quando me descobri mãe.


 CONTENPORANEIDADE X MODERNIDADE

Setenta e três anos é muito e é pouco. Quando olho pra traz acho que fiz muita coisa em tão pouco tempo, quando olho pra frente acho que tem pouco tempo para o tanto que ainda quero fazer. Como dizia Einstein, tudo é relativo no Universo.

Falando em Universo, primeiro é preciso entender que cada um de nós é muito pouco e o que cada um de nós viveu é muito para cada um de nós. Entretanto o que a humanidade já viveu é muito para toda a humanidade. Porque esta é o somatório de cada um de nós com tudo do Universo.  Confuso?Agora vamos voltar pro agora. A coisa que mais impacta na formação basal das pessoas é a família ou a falta dela. Assim como a lagarta que sai do casulo e se transforma numa borboleta, nós também saímos do casulo, mais cedo ou mais tarde.Nosso casulo é o espaço em que vivemos. Ele nos agasalha, nos aperta, nos prende a ideias e ideais, mas também a preconceitos, invejas, medos, orgulho, prepotência, crenças e outras coisas boas e ruins. Dessa forma algumas pessoas saem do casulo aos poucos, lentamente; outras de rompante; algumas bem tarde e ainda há as que nunca saem. Sair ou não depende não só da vontade, mas também, e principalmente, das oportunidades

No meu caso, tanto o espaço vivido como as oportunidades me sorriram, mas a vontade é que me levou ao que sou hoje. 

Nasci numa família muito pobre, filha de operários, mas descendentes de imigrantes (inglês, alemão, árabe, japonês,  italianos e sei lá mais o que). Minha avó materna, a única que conheci e tive bastante contato era filha de imigrantes que vieram após o "fim" da escravidão negra para trabalhar nos cafezais. O meu avô marido dela era libanês, fugido de sua terra natal por perseguição política. Meu pai era filho de um japonês que também veio para trabalhar na lavoura e casou com minha avó que era inglesa, os dois morreram de tuberculose quando meu pai tinha sete anos. Resumindo sou uma como a maioria dos brasileiros, uma mistureba".

Meus pais eram comunistas e essa posição política que levaram até seu fim cognitivo me influenciou bastante, principalmente por causa dos perrengues que passamos durante a última Ditadura Militar. Meu pai era um sonhador, não se preocupava com o futuro, pois a Revolução Socialista logo nos proveria de todo o necessário. Minha mãe segurava o tranco dos três filhos, se virava vendendo Avon, roupa e também empregada como servente no IAPI. Ela também participava ativamente da política e nos levava de arrastro. Minha mãe era uma feminista ferrenha.

Apesar da pobreza, tínhamos muito contato com gente culta porque meu pai trabalhava na gráfica do PCB, onde imprimiam o jornal do partido "A Voz Operária" e outros livros nacionais e traduzidos do russo e do espanhol. 

Eu sempre me inspirava nas palavras da minha avó italiana que dizia "pobre só sai da miséria estudando". Sempre estudei em escolas públicas, mesmo quando elas ainda não eram para todos pois tinham exame de admissão. Mas eu era o que se dizia na época CDF.

Essa vivência, ainda não me deixava sair do casulo, mas me fortalecia contra ele. Não me incomodava quando as minhas colegas riam da minha roupa ou do meu sapato ganho de outros e fora de moda, riam porque não frequentava o clube. Me contentava em ser a melhor aluna e sabia que elas me invejavam por isso.

Queria ser escritora, adorava ler, mas a necessidade de entrar para o tal Mercado de Trabalho me empurrou para fazer o curso técnico na Escola Técnica Federal. Quando terminei fui trabalhar na Light e comecei a cursar engenharia elétrica a noite. Foi um ano duro, pouco dormia.

A situação política no Brasil estava cada vez pior, andávamos com medo. Me ofereceram para ir estudar na URSS (antiga União Soviética). Soltei boa parte das amarras do meu casulo e fui. Valeu muito a pena!

Descobri que apesar de tantas leituras o mundo que eu conhecia e imaginava era muito menor que o mundo real. Estudei engenharia na Universidade dos Povos Patrice Lumumba. Aí estudavam não só soviéticos, mas pessoas de toda parte do mundo, com suas formas de pensamento, seus valores,  suas culturas, etc. Então consegui voar. Conheci, viajei, estudei, aprendi, amei, casei, tive filha e voltei. Era outra pessoa. Daí pra frente o mundo ficou mais fácil de compreender e aceitar a luta. 

A continuação após a anistia fica pra próxima vez!