domingo, 8 de novembro de 2026

MÚSICAS E ALMA

As músicas e letras que nos tocam a alma sempre estão ligadas a momentos bons ou ruins das nossas vidas, mesmo que muitas das  vezes nem conseguimos fazer essa conexão direta.

Ao longo dos meus 73 anos eu poderia enumerar muitas dessas músicas, brasileiras e estrangeiras, e não seriam todas. Desde as brincadeiras infantis, passando pela adolescência até a fase adulta. Hoje ainda algumas músicas novas me fazem brotar lágrimas de alegria ou de tristeza.

É preciso deixar claro que não existe uma relação direta entre conteúdo da letra com alegria ou tristeza, a relação é com o momento das nossas vidas.

Vou escolher duas músicas, não por importância, por acaso. A primeira me traz nostalgia de um momento bem feliz e a segunda de um momento tenso e triste.

"BANDEIRA BRANCA", cantada por Dalva de Oliveira, composta por Marx Nunes e Laercio Neves. Foi muito cantada no Carnaval de 1970. Nesse ano eu tinha 17 anos, mas foi a primeira vez que arrumei um namoradinho, um daqueles que a gente mal dava as mãos para dançar juntos e sentar lado a lado na beira da piscina nos intervalos. Não passou desse carnaval, nunca mais o vi. Não porque não quiséssemos, mas porque os Anos de Chumbo  não permitiam que famílias ativistas do Partido Comunista Brasileiro se encontrassem, por motivo de segurança. Nesse três dias de baile sabíamos quem éramos mas fingíamos ter-nos  conhecido alí, no Clube Náutico do Vasco. Foram três dias de libertação da opressão e do medo.

"NAQUELA MESA", composta por Sergio Bittencourt em 1969 e eternizada nas vozes de Elizeth Cardosos e Nelson Gonçalves. Foi escrita em homenagem ao pai do autor, Jacob do Bandolim.

Estava eu no exílio já a quase um ano, praticamente sem contato com a minha família, tinha uma bolsa de estudos para cursar a universidade e morava numa República Estudantil. Quando chegava da aula ia direto para o corredor dos elevadores (morava no sexto andar). Em frente havia um grande mural onde colavam jornais em vários idiomas e eu sempre dava uma olhadinha enquanto esperava.

Certo dia li um artigo no jornal francês L'Humanité sobre presos políticos no Brasil. Abaixo havia uma lista, identifiquei logo o nome do meu pai. Foi um choque pra mim. Chorei a noite toda e não fui pra aula no dia seguinte.

Eu tinha uma professora de física - Volia Brandão - que era brasileira, na aula seguinte ela me chamou e me cobrou uma justificativa para a falta. Contei.

Volia me disse mais ou menos isso: você está longe e sem comunicação com a família, a única forma de ajudá-los e ao nosso povo é estudando e aproveitando bem essa bolsa que você tem para voltar depois com bagagem para continuar a luta de seu pai.

Aquela fala me tocou muito e me empenhei para seguir sua sugestão.

Na semana seguinte um colega trouxe uma fita com essa música, fiquei muito emocionada e ele me emprestou a fita. Até hoje me dá uma angustia profunda quando a ouço.

Voltei em 1981, após a anistia. Felizmente (apesar de todos os traumas) ainda convivi com meu pai até 2023 ano do seu falecimento. Muitos filhos de ativistas não tiveram a minha "sorte".




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