segunda-feira, 5 de outubro de 2026

 LEMBRANÇAS AFETIVAS DO MEU COTIDIANO


Pensando em falar sobre lembranças afetivas me pairou certa dúvida: o que é Afeto? Fui no dicionário do google (novo pai dos burros) e encontrei três definições:

Substantivo afeto: sentimento de imenso carinho, amor, amizade, ou apego dedicado a alguém, a algum animal ou até mesmo a um objeto ou ideia;

Verbo afetar: significa causar impacto ou transformação;

Lembranças afetivas: são recordações profundamente associadas a emoções, sentimentos e vínculos que vivenciamos ao longo da vida.

Enfim lembranças afetivas podem ser coisas boas ou ruins que nos impactaram tão profundamente que mudaram nosso modo de enxergar e sentir a vida.

Assim que, a minha mais antiga lembrança afetiva foi um tombo que levei aos três anos e bati a cabeça. Não houve corte, mas eu chorava lágrimas de sangue e minha avó botando uma faca na minha testa me mostrava a língua. Então eu ria e botava a língua para ela. Mais tarde soube que queria saber se eu estava vendo. Desse tombo me ficou de lembrança uma pinta na testa.

Muitas outras como a comida árabe que minha mãe fazia; o bolinho de feijão com farinha que meu pai fritava e dizia que era comida japonesa e eu acreditava; o quintal e as árvores frutíferas da casa da minha mãe (onde ela mora até hoje, mas parece bem menor)

A polícia da ditadura invadindo nossa casa e vasculhando tudo em busca do comunista do meu pai.

A Rússia, povo que me acolheu durante sete longos anos; a minha volta ao Brasil após anistia; São algumas das muitas e muitas das minhas memórias afetivas, todas me construíram.

Mas, claro, a mais impactante e transformadora foi quando me descobri mãe.


 CONTENPORANEIDADE X MODERNIDADE

Setenta e três anos é muito e é pouco. Quando olho pra traz acho que fiz muita coisa em tão pouco tempo, quando olho pra frente acho que tem pouco tempo para o tanto que ainda quero fazer. Como dizia Einstein, tudo é relativo no Universo.

Falando em Universo, primeiro é preciso entender que cada um de nós é muito pouco e o que cada um de nós viveu é muito para cada um de nós. Entretanto o que a humanidade já viveu é muito para toda a humanidade. Porque esta é o somatório de cada um de nós com tudo do Universo.  Confuso?Agora vamos voltar pro agora. A coisa que mais impacta na formação basal das pessoas é a família ou a falta dela. Assim como a lagarta que sai do casulo e se transforma numa borboleta, nós também saímos do casulo, mais cedo ou mais tarde.Nosso casulo é o espaço em que vivemos. Ele nos agasalha, nos aperta, nos prende a ideias e ideais, mas também a preconceitos, invejas, medos, orgulho, prepotência, crenças e outras coisas boas e ruins. Dessa forma algumas pessoas saem do casulo aos poucos, lentamente; outras de rompante; algumas bem tarde e ainda há as que nunca saem. Sair ou não depende não só da vontade, mas também, e principalmente, das oportunidades

No meu caso, tanto o espaço vivido como as oportunidades me sorriram, mas a vontade é que me levou ao que sou hoje. 

Nasci numa família muito pobre, filha de operários, mas descendentes de imigrantes (inglês, alemão, árabe, japonês,  italianos e sei lá mais o que). Minha avó materna, a única que conheci e tive bastante contato era filha de imigrantes que vieram após o "fim" da escravidão negra para trabalhar nos cafezais. O meu avô marido dela era libanês, fugido de sua terra natal por perseguição política. Meu pai era filho de um japonês que também veio para trabalhar na lavoura e casou com minha avó que era inglesa, os dois morreram de tuberculose quando meu pai tinha sete anos. Resumindo sou uma como a maioria dos brasileiros, uma mistureba".

Meus pais eram comunistas e essa posição política que levaram até seu fim cognitivo me influenciou bastante, principalmente por causa dos perrengues que passamos durante a última Ditadura Militar. Meu pai era um sonhador, não se preocupava com o futuro, pois a Revolução Socialista logo nos proveria de todo o necessário. Minha mãe segurava o tranco dos três filhos, se virava vendendo Avon, roupa e também empregada como servente no IAPI. Ela também participava ativamente da política e nos levava de arrastro. Minha mãe era uma feminista ferrenha.

Apesar da pobreza, tínhamos muito contato com gente culta porque meu pai trabalhava na gráfica do PCB, onde imprimiam o jornal do partido "A Voz Operária" e outros livros nacionais e traduzidos do russo e do espanhol. 

Eu sempre me inspirava nas palavras da minha avó italiana que dizia "pobre só sai da miséria estudando". Sempre estudei em escolas públicas, mesmo quando elas ainda não eram para todos pois tinham exame de admissão. Mas eu era o que se dizia na época CDF.

Essa vivência, ainda não me deixava sair do casulo, mas me fortalecia contra ele. Não me incomodava quando as minhas colegas riam da minha roupa ou do meu sapato ganho de outros e fora de moda, riam porque não frequentava o clube. Me contentava em ser a melhor aluna e sabia que elas me invejavam por isso.

Queria ser escritora, adorava ler, mas a necessidade de entrar para o tal Mercado de Trabalho me empurrou para fazer o curso técnico na Escola Técnica Federal. Quando terminei fui trabalhar na Light e comecei a cursar engenharia elétrica a noite. Foi um ano duro, pouco dormia.

A situação política no Brasil estava cada vez pior, andávamos com medo. Me ofereceram para ir estudar na URSS (antiga União Soviética). Soltei boa parte das amarras do meu casulo e fui. Valeu muito a pena!

Descobri que apesar de tantas leituras o mundo que eu conhecia e imaginava era muito menor que o mundo real. Estudei engenharia na Universidade dos Povos Patrice Lumumba. Aí estudavam não só soviéticos, mas pessoas de toda parte do mundo, com suas formas de pensamento, seus valores,  suas culturas, etc. Então consegui voar. Conheci, viajei, estudei, aprendi, amei, casei, tive filha e voltei. Era outra pessoa. Daí pra frente o mundo ficou mais fácil de compreender e aceitar a luta. 

A continuação após a anistia fica pra próxima vez!

terça-feira, 18 de novembro de 2025

EU E O AGENTE SECRETO

 
    Tudo começou com a repercussão do filme “O Agente Secreto”. Muitos bons comentários, muitos prêmios. Quando entrou em cartaz no Rio de Janeiro logo nos animamos. 
    Tenho dois irmãos, um mais velho e um mais novo. Na sexta da semana anterior eles foram juntos assistir ao filme. Encontrei-os no sábado e logo perguntei: - como foi o filme gostaram? As respostas foram evasivas e mudaram de assunto. Estranhei mas não insisti, pensei que talvez o filme não fosse tão bom assim ou era confuso e eles não entenderam. Entretanto eu estava disposta a ver para tirar minhas próprias conclusões.
    No domingo (16/11/2025) fui com minhas três primas e amigas de alegrias, infortúnios e lutas. Nada comentei sobre meu “pé atrás” com o filme. Chegamos cedo no Imperátor (no Meier), tomamos um café com pão de queijo e entramos na sala de projeção. O filme não dá fôlego para raciocinar. Do começo ao fim é só emoção. Não emoção de filme americano de super herói. É emoção de ar, de alma. Quando terminou nós ficamos sentadas caladas, diferentemente do filme “Ainda Estou Aqui” que mal terminou começamos a relembrar os fatos que vivenciamos relacionados a este. Agora não, foi lá no fundo e a alma não fala sente. Saímos caladas e procurando um “pipi”. Depois do alívio no banheiro, já na grande antessala do Imperator consegui falar alguma coisa e minhas primas concordaram (acho).
    Aí vou contar pra você porque só quem viveu o que vivemos viu esse filme como vimos. Nós assistimos outro filme, aquele que está preso aqui dentro. Desde criança e adolescência convivíamos com pessoas ativistas de esquerda, dirigentes do PCB e tantos outros na época “ilegais”. Meu pai trabalhava na imprensa no jornal Voz Operária, jornal de esquerda proibido. Minha mãe e minhas outras duas tias davam abrigo aos que eram procurados. E nós nesse meio vivíamos sob tensão. Todas aquelas pessoas tinham codinomes ou nenhum nome (todos eram tios e tias). Tratavam-nos com carinho, mas sempre preocupados e tristes. Nada sabíamos deles. Todo tempo minha mãe dizia: “quanto menos vocês souberem melhor, quem é preso e torturado acaba falando. Se não sabe não fala”. Vivíamos sob aquele terror. Não podíamos participar de manifestações, não podíamos ter amigos fora da família, pois podiam desconfiar. O medo não era da tortura, na nossa idade ainda não entendíamos a dimensão disso. O medo era entregar alguém e ser responsável pela quebra da estrutura.  
Não vou contar, mas o final do filme foi muito emocionante. Esquecer para esconder o sofrimento. Foram quase três horas de filme que transbordou os mais de 20 anos presos aqui. Só agora consigo chorar. Foi um agente secreto no meu coração.
Acho que, como diz a minha filha, preciso de um psicólogo.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

sábado, 6 de janeiro de 2018

AUTO ANÁLISE

AUTO ANÁLISE

1. MEU NOME


Sabe Mabel, vou começar pelo nosso nome. Quando a gente nasce o primeiro carma que nos colocam no ombro é o nome. Uns tem nomes de artistas, outros dos pais, outros ainda nomes inventados. Há aqueles que como minha tia teve o nome da irmã que havia recém morrido quando ela nasceu. Sempre ficava horrorizada quando falavam da morta -"...quando a Violetinha morreu..."- e eu me lembrava que a tia Leta carregava seu nome. Carregava mesmo, porque nome a gente carrega.
Mabel e Ana
Voltando ao meu (nosso) nome Mabel. Esse nome veio da minha avó paterna que morreu muito tempo antes de eu nascer e deixou o nome que colocaram no meu ombro. Esse nome era pesado demais pra mim quando eu era criança. sofri muito bouling com ele. Rimava com papel e por isso até quebrei a cabeça de um rapaz por me chamar assim. fico grata a minha amada avó materna Maria por ter me defendido do pai dele quando veio reclamar. Maria é um nome simples e assim era essa minha avó feita de açúcar, história em quadrinhos e amor.
Bom, de novo ao Mabel. O outro problema era a origem. Como minha avó Mabel era inglesa a chamavam de "Meibel" e assim era comigo em casa. Quando minha mãe atendia o telefone e perguntavam -"a Mabel está?" - ela respondia, -"aqui não mora nenhuma Mabel". Me era imposto brigar com todo mundo para que me chamassem de "Meibel". E assim o nome ficava mais pesado ainda porque ou as pessoas me chamavam de Mabel pra me irritar ou riam ou ainda diziam que eu era brasileira então não podia exigir que falassem inglês. Quanto peso...
Carreguei isso até os 21 anos, quando completei a maioridade absoluta e mudei de lugar, de cultura, de idioma. Descobri que em russo meu nome soava masculino, não por causa do “a” ou do “ei”, e sim porque terminava em consoante dura o “l”. Então acrescentaram ao final do meu nome o chamado “sinal brando”, que na verdade soava como um “i” fraquinho. Ficou então Mabeli. Como meus colegas nativos estudavam como segunda língua o francês, me chamavam de Ma Belle, o que tornava meu nome muito mais leve.
Quando voltei ao Brasil não quis mais acrescentar peso ao nome então abri espaço para o Mabel. Minha família continua me chamando de Meibel mas para os de fora já me apresento com o nome abrasileirado mesmo. Alguns amigos me chamam de Bel e eu gosto porque é carinhoso.
Por causa de uma maldita (rs) marca de biscoito alguns alunos me chamavam de professora biscoitinho, na minha cara. Não me incomodou porque era carinhoso também.
Enfim faço tudo para tornar esse nome menos pesado. Entre meus alunos tem uns com nomes mais pesados que o meu e entendo como é difícil para eles.
Devíamos, como em algumas tribos indígenas, escolher o nome depois de adultos. Não que isso modificaria o peso do nome, entretanto o carregaríamos com maior prazer, pois foi nossa a escolha.

Quando minha filha nasceu pensei em dar a ela um nome bem universal - pois o pai dela não é brasileiro – que ficasse fácil de falar em todos os idiomas. Queria também homenagear o país que me acolheu com tanto carinho e onde ela nasceu. Escolhi um nome comum na Rússia: Tatiana. Quando o pai dela voltou do cartório com cara de “cachorro ladrão” e disse que ele tinha colocado outro nome quase caí dura. Mas amei o nome que ele escolheu. Ana, simplesmente Ana, que na primeira certidão russa era com dois enes e para ficar mais simples, pedi para homologar no Brasil com um ene apenas. Mais simples e internacional que isso impossível. Não sei se pesa pra ela, mas procurei que não.

terça-feira, 2 de abril de 2013

VERBO IR NO HORTIFRUTI


Verbo ir ao Hortifruti

Quando necessito de legumes frutas e verduras, o que acontece com muita freqüência, pois adoro comer alimentos vegetais em detrimento dos animais. Não que eu seja vegetariana por ideologia, mas como pouca carne. Bom, continuando, quando preciso quase sempre vou a um chamado Hortifruti aqui, mas ou menos, próximo da minha casa. Gosto de ir lá por vários motivos: o primeiro deles é que as mercadorias são de boa qualidade, o segundo é que eu escolho, pago e entregam em casa. Não de graça, claro, mas por uma módica quantia a mais que compensa.

Entretanto ir lá é mais do que uma tarefa semanal para suprir as necessidades domésticas. Eu aproveito para exercitar os músculos. Por não estar localizado, este comércio, tão longe que precise de condução e nem tão perto que não precise de esforço, aproveito pra fazer uma boa caminhada de ida e volta. O melhor não é o exercício físico, que é bom também, mas liberar o cérebro. No caminhar dou total liberdade à minha massa cinzenta - será mesmo dessa cor? – Sei que é perigoso, pois o desligamento do mundo real pode me levar a cair num buraco e até mesmo ser atropelada ou assaltada, mas não resisto e ele sai por aí voando pensando coisas desconexas (será?) que pululam de um assunto a outro muito rapidamente. Derrepente, do nada, algo chama a atenção para o real e ele volta. Volta trazendo os últimos e inacabados pensamentos. Nesse momento tento colocar uma lógica nas coisas pensadas, às vezes consigo outras não.

Hoje foi assim, da ida nem me lembro tão desligada estava. Quando me dei conta estava perguntando se o rapaz que entrega estava trabalhando. Pergunto sempre antes de começar a escolher, pois eu não posso carregar tanto peso. Deu-me até uma angustia quando pensei como atravessei ruas até chegar e nem lembrar. É claro que o cérebro tem uns neurônios que ficam de prontidão para retorná-lo em caso de emergência, mas ficar fora do comando, deixando no piloto automático, é muito bom mais causa certa apreensão.

Acho que isso fez com que na volta ele não voasse tão longe e me percebi pensando no verbo ir. Esse é um verbo bem interessante, pois apesar de se chamar “ir”, no passado eu digo fui e no futuro vou, nenhuma parecença. E, pior, ele não tem presente próprio tem que ser ajudado pelo auxiliar. Maria vem aqui! Estou indo mãe! (me desculpem os gramáticos). Então parei, na porta da farmácia, como se fosse comprar algo e tentei buscar as pontes lógicas que levaram a esse pensamento.

Já ia longe, mas ainda audível, um carro de som fazendo propaganda de uma loja especializada em skate. Dizia, além do nome, endereço e telefone, que tinham todo tipo de peças para reposição nacionais e gringas. Isso me levou a tirar da cachola a origem desse nome, ou pelo menos a história da origem. Na Segunda Grande Guerra os Americanos dos EUA, pois nós também o somos, fixaram uma base militar no Nordeste brasileiro. Trouxeram seus combatentes vestidos de farda verde. Muitas pessoas descontentes com essa invasão, consentida pelos governantes brasileiros, gritavam palavras de ordem em inglês, pedindo que se fossem. Uma delas era green go que significa, numa tradução liberal, “verdes fora!”. As pessoas que não sabiam inglês, que era a maioria, achavam que esta era uma só palavra “gringo” e acabou, pelas vias tortuosas da língua, passando a significar estrangeiro. Esse go me remeteu ao verbo ir, em português, e daí para o resto foi só ligar os pontos.

Cheguei em casa!! Ufa!

domingo, 15 de maio de 2011

ARQUEOLOGIA EXTRATERRESTRE


  ARQUEOLOGIA EXTRATERRESTRE


Dito tem uma banca de camelô no Largo de São Francisco. Na banca ele vende miudezas domésticas, principalmente pano de prato e outros paninhos coloridos de limpeza. O nome de verdade dele é Benedito, mas desde criança todos os chamam de Dito. Me disse um dia que até gosta porque é menorzinho.

O Largo de São Francisco, na cidade do Rio de Janeiro, é um espaço em cujo entorno encontramos a Igreja de São Francisco, a Faculdade, o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, além de muitas lojas e prédios comerciais. Durante a semana o Largo fervilha de tanta gente.

Sempre que passo ali compro uns panos de prato na banca do Dito. Já tenho muitos, compro pra distribuir para familiares e amigos e ajudar o Dito. Minto! Compro para ouvir as histórias interessantes dele.

Certo dia eu estava passando no Largo por volta das 18 horas, o Dito já estava arrumando a banca para fechar. Comprei dois paninhos e puxei um papo porque queria ouvir suas histórias e também passar um tempo para fugir do horário do rush.

Dito puxou dois caixotes que estavam embaixo da banca sentou em um e me ofereceu o outro. Levantou a cabeça, passou os olhos pelos prédios e depois para o céu que já estava de uma cor azul escuro. Olhou pra mim e disse:

– Vou te contar uma história que nunca contei pra ninguém porque acho que vão dizer que sou mentiroso ou mesmo louco. Mas juro que foi verdade!

Vou tentar escrever o mais próximo possível da forma como ele me contou. Eu nunca contei pra ninguém e nem julguei o meu amigo. Fica agora a seu critério, caro leitor. 


Ele chegou numa nuvem. Dessas que passam e não choram nem uma lágrima. Apenas passam. Ou era ela? Não sei, só sei que era domingo e que não havia ninguém no Largo de São Francisco, aquele do Rio de Janeiro. Olhou o entorno, abaixou-se e observou atentamente o chão, levantou-se. Movimentando-se lentamente, parecia que flutuava na superfície, entrou na igreja. Passou lá um tempo. Depois saiu e passou a olhar para as fachadas dos prédios. Eu me encolhi com medo que me visse. Sacudiu a cabeça parecendo pensar: -“nada mau, lugar interessante”.

Tirou do que parecia um chapéu um pedaço de nuvem quadrada e outra esférica. Com um raio de luz escrevia no quadradinho, ao mesmo tempo em que falava no novelinho branco:

-Encontrei sítio arqueológico. Construções organizadas em torno de um pátio sugerindo terem sido construídas por sociedade primitiva inteligente.

A partir daí, ia falando na sua nuvenzinha redonda e escrevendo na sua nuvenzinha quadrada. Parece que o que escrevia era o mesmo que falava.

- O piso do pátio é pavimentado com pedras coloridas. Algumas faixas, sugerindo caminhos ou passarelas, são feitas com aquele elemento altamente perigoso chamado asfalto. Pelo que observo, as construções são de concreto o que permite datá-las, possivelmente, do período Terroso. Tempo esse em que a população desse planeta deve ter sido extinta.

- Do ponto de vista artístico eram bem desenvolvidos nas artes manuais de construção. Alguns prédios têm a fachada com desenhos em alto relevo. Outros, assim como parte do piso, são revestidos com pedras de vários tamanhos, formas e cores.

Pelo que parece chegaram ao mais alto estágio da idade da pedra, pois já conheciam o concreto e manipulavam habilmente algumas ferramentas simples movidas a combustível fóssil. Ainda tem algumas dessas por aqui, largadas, daquele material chamado aço, em perfeito estado de conservação.

Construíam templos para cultuar seus deuses. Esses eram grandes, adornados também com alto relevo e metais amarelos e brancos. Matavam árvores, faziam entalhes e colocavam nos templos como em sacrifícios aos seus Deuses. Alguns entalhes parecem que servem para sentar, outros são imagens estranhas com olhos tristes como se estivessem ali para espantar os maus espíritos.

O prédio que parece ser um templo está aberto, mas os outros estão fortemente fechados, como se algo muito pavoroso os tivesse levado a extinção. A impressão é que tinham medo, muito medo! Do que seria?

A sombra já está chegando e podemos ficar com a energia baixa. Sugiro que uma equipe de arqueólogos, melhor equipado, retorne para um estudo mais detalhado.

Subiu na nuvem, que ainda estava ali parada e, sem nenhuma gotinha se foi.

Ninguém viu. Só eu, pela fresta do meu quartinho ali no segundo andar da faculdade. A noite caiu e os primeiros raios do alvorecer trouxeram o burburinho da segunda-feira. Todos se movimentam. Mas eu fico ali, quieto, a esperá-los num domingo desses.

Maio de 2010

O emprego do pronome indefinido...

(Autor desconhecido)

Era uma vez quatro indivíduos que se chamavam todos, cada um, alguém e ninguém.
Existia um importante trabalho a ser feito, e pediram a todos para fazê-lo.
Todos tinham certeza de que alguém o faria.

Cada um poderia tê-lo feito, mas na realidade ninguém o fez.
Alguém se zangou, pois era trabalho de todos!

Todos pensaram que cada um poderia tê-lo feito e ninguém duvidava de que alguém o faria.

No fim das contas, todos fizeram críticas a cada um porque ninguém tinha feito o que alguém poderia ter feito.

*** Moral da história***

Sem querer recriminar a todos seria bom que cada um fizesse aquilo que deve fazer sem alimentar esperança de que alguém vá fazê-lo em seu lugar...

A experiência mostra que lá onde se espera alguém, geralmente não se encontra ninguém.

domingo, 1 de maio de 2011

BOB MARLEY

 








"Enquanto a cor da pele for mais importante que o brilho dos olhos, ainda haverá guerra"

segunda-feira, 31 de maio de 2010

NO TREM

NO TREM

Corre, desce a escadaria e esbaforido entra no trem que já o esperava na estação. Senta e abre o jornal que trazia embaixo do braço. Todos os dia, há muitos anos, era a mesma coisa. Saía de casa às seis da manhã, comprava o jornal na banca da esquina e rumava para a estação. Nunca o lia com profundidade no trem. Passava os olhos saboreando as manchetes antevendo o prazer de embeber-se no conteúdo quando chegasse ao escritório.
 
Sua visão é atraída para aquela foto do povo andando pela linha do trem. Seu primeiro ímpeto foi olhar a data do jornal e confirmar o dia de hoje. Ela remete-o a outro momento. Foi como se abrindo aquela página o tempo tivesse retornado. Não! Como se não tivesse passado, porque é tão forte e nítida a lembrança que apaga todas as posteriores.

Naquele dia, quando entrou no trem,uma mulher correndo empurrou-o e sentou-se no banco ao lado da porta, que naquela época da Rede Ferroviária Federal, estava sempre aberta.

Sentou-se no lugar de sempre. Por acaso em frente a ela. Abriu o jornal, mas não resistiu àquele olhar. Havia uma espécie de magnetismo que o atraia. Várias vezes disfarçou e observou-a. Não era bonita nem feia, não era jovem nem velha. Mas tinha uns olhos cor de mel brilhantes, que contrastavam com a blusa branca amarelada que usava. Enquanto observava seu pensamente voava de forma atabalhoada:

- Será que vai pro trabalho? Trabalha em que? Será que tem filhos? Nem sei se é casada. Porque está com tanta pressa?

Ela parecia tranqüila. Ao baixar os olhos deparou-se com as aquelas mãos entrelaçadas. As veias saltadas denunciavam a tensão que o resto do corpo escondia.

Sentiu cheiro de fumaça. O trem ia em alta velocidade. Aquele era o vinte e três que ia de Cascadura ao Engenho de Dentro sem parar e por isso acelerava no longo espaço entre as duas estações. Escutou longe alguém dizer:

- O vagão está pegando fogo!

A mulher, lentamente, levantou-se, aproximou-se da porta e, antes que ele ou qualquer outra pessoa pudesse sequer levantar a mão, atirou-se. Ficou atônito, sem ação. Ouve uma voz longe:

- Puxaram o freio de emergência, já está parando vamos descer na linha. Mas era como se pesasse uma tonelada, não conseguia movimentar-se.

-Vamos descer as labaredas já estão entrando no trem!

Ele não se moveu.

Alguém pegou-o pela mão e ajudou-o a descer.

No chão arrastava-se. Era o último de uma multidão que caminhava pelos trilhos em direção a estação mais próxima.

De costa lá na frente viu uma blusa branca amarelada como a dela, pensou em correr para alcançá-la, mas ouviu um comentário:

-Coitada a pobre se apavorou e morreu.
 
MABEL IDE maio de 2010



QUAIS FATORES ME LEVARAM A GOSTAR DE LER?

Há algum tempo observo com angustia a dificuldade que muitos dos meus alunos têm em ler e escrever. Pensando em como eu desenvolvi o gosto pela leitura cheguei a algumas conclusões. Primeiramente que ler e escrever são habilidades diferentes. O bom leitor não, necessariamente é um bom escritor. Mas são complementares. O desenvolvimento de uma delas ajuda a desenvolver a outra. Muitos são os fatores que ajudam a desenvolver o gosto pela leitura, entretanto três deles são, em minha opinião, básicos. O primeiro é de caráter genético, o segundo sócio-cultural e o terceiro sócio-econômico.

Nesses anos compreendi que nascemos com determinadas habilidades mais desenvolvidas que outras. Alguns escrevem melhor, outros lêem bem, outros falam bem, outros, ainda, dançam, cantam ou tocam algum instrumento musical e etc. dessa forma a habilidade de ler vai ser mais fácil de ser desenvolvida pra uns que pra outros, apesar de todos serem capazes, se estimulados, de ler. Foi fácil pra mim desenvolver o hábito da leitura, mas cantar e dançar, que eu gostaria muito de saber, não aprendi porque não nasci com essas habilidades e ninguém me estimulou.

O meio sócio-cultural também conta muito na estimulação. No meu caso, apesar de meus pais não terem estudado, eles se envolveram em política, por isso tínhamos jornal todos os dias em casa e a família discutia as notícias. O fato da minha avó, que morava conosco, gostar de ler e contar-nos história que me fascinavam me instigaram a embrenhar-me no mundo mágico da leitura.

E, finalmente, o contato com os objetos de leitura também é importante. Uma família que não tem letras pra comer é mais pobre que aquela que não tem comida. Meu pai era gráfico e trabalhava numa editora. Não tinha dinheiro para comprar livros, mas sempre que podia trazia para casa sobras de tiragem ou os livros e revistas que saiam com pequenos defeitos. Até hoje me lembro de muitos deles com carinho.

Gostar de ler é o resultado dessas três coisas, não, necessariamente, na mesma proporção.

 
Escrito em 05/04/2010

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

COMEÇA UM NOVO ANO LETIVO

Após longas e merecidas férias estou de volta. Desejo a todos os alunos e profissionais envolvidos com a educação um ano harmonioso e produtivo.

"Se o duro combate
Os fracos abate,
Aos fortes, aos bravos,
Só pode exaltar"

(Tirado do poema Canção do Tamoio, Gonçalves Dias)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

ATÉ O PRÓXIMO ANO



Quero encerrar o ano agradecendo aos meus alunos pelos momentos de felicidades que me deram.

Desejo a todos, alunos, professores, funcionários, responsáveis e amigos, um Feliz Natal e um ano de 2010 de muita paz, saúde e novos conhecimento.

Prometo voltar, em fevereiro, para continuarmos nosso diálogo.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

NIVER DA PROFESSORA BEATRIZ


Os alunos da turma 601 organizaram uma festinha para a professora Beatriz (Lingua Portuguesa). Gostei muito da capacidade de organização deles e da disciplina. Os comes e bebes também estavam muito bons. A festa foi ótima! Quem não esteve lá pode conferir as fotos.


quinta-feira, 15 de outubro de 2009

DIA DOS PROFESSORES



Porque sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...
(De O Guardador de Rebanhos - Alberto Caieiro)

O sonho e a obrigação do professor é ajudar no crescimento
dos jovens, abrindo os olhos e a alma deles para o mundo.